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Energia das Ondas e Marés: O Futuro da Matriz Energética?

Escrevo muito sobre solar e eólica — as estrelas da transição energética. Mas existe uma fonte que me fascina há tempo e que ainda é pouco discutida no Brasil: a energia dos oceanos. Temos mais de 7.400 km de litoral, um dos maiores do mundo, e aproveitamos uma fração mínima do potencial energético que esse mar carrega.

Pesquisei o tema a fundo para entender onde estamos, o que já funciona e o que ainda é promessa. Esse artigo é o resultado dessa pesquisa.

Dois tipos de energia oceânica — e como são diferentes

Energia das ondas

As ondas são geradas pelo vento sobre a superfície do mar. Elas carregam energia cinética — o movimento — e energia potencial — a variação de altura. Dispositivos chamados conversores de energia de ondas capturam esse movimento e o transformam em eletricidade.

Os formatos mais comuns são as boias que sobem e descem com as ondas, as colunas oscilantes de água que comprimem ar para mover turbinas, e os dispositivos de rampa que aproveitam o impacto das ondas na costa. Cada tecnologia tem vantagens dependendo do perfil do litoral onde é instalada.

Energia das marés

As marés são causadas pela gravidade da Lua e do Sol — e isso as torna previsíveis com décadas de antecedência. Sabemos exatamente quando a maré vai subir e descer em qualquer ponto do planeta. Essa previsibilidade é uma vantagem enorme que solar e eólica não têm.

As tecnologias principais são as barragens de maré — semelhantes a hidrelétricas, mas movidas pelo fluxo das marés — e as turbinas submersas, que funcionam como moinhos de vento debaixo d’água, aproveitando as correntes de maré.

O que já está funcionando no mundo

A usina de La Rance, na França, é a maior usina de energia de marés em operação no mundo — funciona desde 1966 e ainda abastece cerca de 130 mil residências. Na Escócia, o projeto MeyGen opera turbinas submersas no estreito de Pentland, uma das regiões com correntes de maré mais intensas do mundo.

Na Coreia do Sul, a usina de Sihwa Lake tem capacidade instalada de 254 MW — maior que La Rance — e usa as marés para gerar energia sem emissões. São exemplos que mostram que a tecnologia funciona — o desafio é o custo, não a viabilidade técnica.

O potencial brasileiro que ainda não exploramos

O Brasil tem condições favoráveis em vários pontos do litoral. A região norte — especialmente o Maranhão, com a Baía de São Marcos — tem uma das maiores amplitudes de maré do mundo, chegando a mais de 7 metros. É um potencial enorme que ainda está completamente inexplorado.

No Ceará, pesquisadores da UFC (Universidade Federal do Ceará) desenvolveram protótipos de conversores de energia de ondas adaptados ao litoral nordestino. Em 2023, um projeto-piloto gerou eletricidade suficiente para abastecer uma pequena comunidade costeira. São passos pequenos, mas reais.

Por que ainda não decolou — e o que pode mudar

O principal obstáculo é econômico. Instalar e manter equipamentos no ambiente marinho é caro — a água salgada corrói, as tempestades danificam, a manutenção exige mergulhadores ou embarcações especializadas. O custo por MWh gerado ainda é muito maior que solar ou eólica.

Mas isso era verdade para o solar há 15 anos. O custo da energia solar fotovoltaica caiu mais de 90% entre 2010 e 2024, segundo a IRENA. A trajetória tecnológica das energias oceânicas está seguindo caminho parecido — só com alguns anos de atraso.

O que me convenceu pesquisando o tema

A vantagem que mais me impressionou é a complementaridade. Energia solar funciona melhor durante o dia. Eólica, quando tem vento. Maré, independentemente de sol ou vento — e com previsibilidade de décadas. Num sistema energético integrado, a maré preenche exatamente os momentos em que as outras fontes falham.

O Brasil tem litoral, tem pesquisa, tem potencial. O que falta é investimento público consistente e interesse da iniciativa privada. Com o avanço da agenda de transição energética no país, é provável que nos próximos 10 anos vejamos os primeiros projetos comerciais de energia oceânica no Brasil.

O mar sempre esteve em movimento. A pergunta não é se vamos aproveitá-lo — é quando.

— Eduardo, agora88

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