Conheci a família da Dona Raimunda num evento de educação ambiental aqui no Norte. Ela mora num bairro de periferia de Manaus, tem três filhos e, até dois anos atrás, nunca tinha ouvido falar em compostagem. Hoje ela tem uma horta no quintal, reduz o lixo que produz em mais da metade e ainda ensina os vizinhos. Essa é a história dela — e é real.
O começo foi a conta de luz
Tudo começou quando a conta de energia chegou a R$ 420 em um mês. Dona Raimunda não tinha como pagar sem comprometer o orçamento da semana. Foi aí que o filho mais velho, de 16 anos, pesquisou na internet como reduzir o consumo elétrico e trouxe para casa uma lista de mudanças simples.
Trocaram as lâmpadas por LED. Passaram a desligar os aparelhos da tomada. Deixaram de usar o chuveiro elétrico no horário de pico. No mês seguinte a conta caiu para R$ 290. Não foi energia solar nem tecnologia cara — foi atenção e disciplina.
A composteira que virou horta
Quando contei para Dona Raimunda sobre compostagem, ela achou estranho. “Juntar lixo de comida de propósito?” Mas experimentou. Com restos de cascas, talos e borra de café, ela montou uma composteira simples com um balde velho. Em dois meses tinha adubo. Com o adubo, plantou coentro, cebolinha e pimentão no quintal.
Hoje ela não compra mais essas ervas no mercado. E o lixo orgânico da casa, que antes ia todo para o saco de lixo, virou recurso. Esse ciclo simples reduziu o volume de lixo que ela produz em mais de 40%.
O efeito nos filhos
O que mais me impressionou foi o impacto nas crianças. O filho mais novo, de 9 anos, virou o “fiscal do lixo” da casa — ele que lembra todo mundo de separar o reciclável. A filha do meio criou um projeto na escola sobre a composteira da mãe e ganhou menção honrosa.
Dona Raimunda me disse algo que ficou guardado: “Eu não ensino sustentabilidade para eles. Eu mostro. E eles copiam tudo.”
O que essa história me ensinou
Sustentabilidade não precisa começar com painéis solares ou produtos orgânicos caros. Pode começar com uma conta de luz alta demais e um filho curioso. Pode começar com um balde velho e restos de comida.
A família de Dona Raimunda não mudou tudo de uma vez. Mudou uma coisa por vez, quando fazia sentido e cabia no orçamento. Esse ritmo é o que torna a mudança sustentável — no sentido literal da palavra.
Quando saí da casa dela naquele dia, ela me deu um maço de coentro da horta. Aquele coentro tinha nascido do lixo que ela antes jogava fora. Difícil encontrar metáfora mais bonita que essa.
— Manuela, agora88
